As vezes queria ficar pequeno, bem pequenino, que coubesse debaixo do armário.
Daí lá de baixo bem escondido e encontrado, ver o mundo na sua magnitude e as pequenas coisinhas engrandecidas -nada como uma mudança no ponto de vista para colocar as coisas em perspectiva.
E, protegido de abraços, mentiras e beijos; escondido lá, meio homem, meio embrião, qualquer coisa de covarde, ensimesmado naquela velha metáfora de pequenitude, pensava que as vezes queria ficar pequeno.
quarta-feira, 26 de setembro de 2007
quarta-feira, 19 de setembro de 2007
Nóia II
Ele estava lá esperando. Mão esquerda no bolso, a direita arrumando o impecável cabelo. Pigarreou, umedeceu os lábios, estampou um sorriso de canto de boca.
É sua vez, doutor.
Fez uma imagem mental de si mesmo e, satisfeito, entrou encarando o seu auditório. Acenou para as fileiras da frente com humildade fingida, sorriu para todos e começou:
Caros senhores...
Ele os tinha em suas mãos. Cada movimento, cada inflexão na voz, cada piada casual, tudo isso exaustivamente treinado para que parecesse fácil. E o texto, ah! que texto. Estava oferecendo nada menos que A palestra de suas vidas.
Mão esquerda no bolso, a direita falando junto com as palavras, desenvolvia o discurso, cada vez mais claro, mais belo.
Chegava ao ápice, a platéia atenta:
O que nos leva a crer...
E nesse ponto, por descuido, escorregou a mão esquerda pra fora do bolso.
Calou-se.
Olhou pra platéia embasbacada. Aqui e ali podia perceber o asco de seu auditório.
Olhou para a mão, com seus sete dedos, e riu nervoso, o riso ecoando no sepulcral silêncio.
Olhou para o alto, respirando fundo para não chorar.
E então, com um leve cutucar na nuca, desapareceu como se nunca houvesse existido homem, nem mão, nem dedo.
E que alívio se operou na platéia.
É sua vez, doutor.
Fez uma imagem mental de si mesmo e, satisfeito, entrou encarando o seu auditório. Acenou para as fileiras da frente com humildade fingida, sorriu para todos e começou:
Caros senhores...
Ele os tinha em suas mãos. Cada movimento, cada inflexão na voz, cada piada casual, tudo isso exaustivamente treinado para que parecesse fácil. E o texto, ah! que texto. Estava oferecendo nada menos que A palestra de suas vidas.
Mão esquerda no bolso, a direita falando junto com as palavras, desenvolvia o discurso, cada vez mais claro, mais belo.
Chegava ao ápice, a platéia atenta:
O que nos leva a crer...
E nesse ponto, por descuido, escorregou a mão esquerda pra fora do bolso.
Calou-se.
Olhou pra platéia embasbacada. Aqui e ali podia perceber o asco de seu auditório.
Olhou para a mão, com seus sete dedos, e riu nervoso, o riso ecoando no sepulcral silêncio.
Olhou para o alto, respirando fundo para não chorar.
E então, com um leve cutucar na nuca, desapareceu como se nunca houvesse existido homem, nem mão, nem dedo.
E que alívio se operou na platéia.
Nóia
Terminou de falar.
Os dois homens o olhavam como se esperassem por mais.
Sorriu amarelo e disse ‘Acabou’.
Eles não disseram nada; eram só olhos, nenhuma boca.
Fechou o sorriso e passou a língua na gengiva, percebendo os pontos em que sangrava.
Eles ainda não diziam nada, o da esquerda suspirou fundo.
Notou na frente da boca um dente frouxo. Balançou-o pra frente e pra trás distraído, só percebendo quando soltou. Desesperou-se e no desespero engoliu toda a saliva e sangue e dente.
-É somente isso. Obrigado, falaram os dois como um monstro bicéfalo.
Levantou-se sem abrir a boca. Correu o mais que pode, tentando não chamar atenção.
A da direita, Apressado?
Balançou a cabeça concordando.
A da esquerda, sorrindo, Mas pra quê?
Caiu sobre si o inevitável. Coisas, disse, expondo o buraco grotesco da ausência do dente, Coisas a serem feitas. Deu-lhes as costas e saiu em passos miúdos.
Naquele momento teve a certeza de que sua presença era somente tolerada.
Os dois homens o olhavam como se esperassem por mais.
Sorriu amarelo e disse ‘Acabou’.
Eles não disseram nada; eram só olhos, nenhuma boca.
Fechou o sorriso e passou a língua na gengiva, percebendo os pontos em que sangrava.
Eles ainda não diziam nada, o da esquerda suspirou fundo.
Notou na frente da boca um dente frouxo. Balançou-o pra frente e pra trás distraído, só percebendo quando soltou. Desesperou-se e no desespero engoliu toda a saliva e sangue e dente.
-É somente isso. Obrigado, falaram os dois como um monstro bicéfalo.
Levantou-se sem abrir a boca. Correu o mais que pode, tentando não chamar atenção.
A da direita, Apressado?
Balançou a cabeça concordando.
A da esquerda, sorrindo, Mas pra quê?
Caiu sobre si o inevitável. Coisas, disse, expondo o buraco grotesco da ausência do dente, Coisas a serem feitas. Deu-lhes as costas e saiu em passos miúdos.
Naquele momento teve a certeza de que sua presença era somente tolerada.
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