Ele não deveria ser como era. Ou eu achava que não deveria se parecer assim. Mas o que eu sei sobre carrascos, afinal? Só sei que esperava algo grotesco, menos homem, mais carrasco, como se o corpo marcasse o ofício. Esperava qualquer coisa, menos um homem que eu poderia conversar, que poderia ter pais e filhos, que simplesmente não fosse como era.
E devo ter parecido quase decepcionado, porque disse, ‘A justiça toma muitas formas.’
‘A justiça?’, eu perguntei e ele não disse mais nada. Serviu-me o café, ‘Açúcar?’
‘Injustiçado?’, não disse nada. ‘Injustiçado?’, ele repetiu.
Sorri, ‘A injustiça toma muitas formas.’
Ele não sorriu, ‘O Povo quer Justiça.’
Engraçado pensar no povo, essa besta indefinível, incompreensível. O povo quer justiça, o povo quer comida, o povo quer. Essa criança mimada, o povo. ‘Sou um mártir?’, disse rindo, ‘um mártir morre agradando o Povo, para o Povo.’
‘Não diga tolices!’
Não falei mais. E ele, ‘Clemência? Não vai pedir clemência?’
‘Não diga tolices’, foi minha vez de dizer, ‘O que o povo conhece do que é perdão? O que o povo conhece de culpa, arrepender-se? O povo é um peixe.’
‘O cárcere atrofiou-lhe a alma, os olhos. Acaba-se a Liberdade e logo se perde o senso’
‘Pelo contrário, na falta do que pensar aguçam os sensos filosóficos e morais. Ousa dizer o que é liberdade? É ver o sol nascer inteiro? É estar fora daqui? Qual é o espaço mínimo para se ser livre? Um quarto, uma casa, uma cidade? Porque está sempre nalgum lugar o homem, em algum lugar de onde nunca sairá! Liberdade de fazer o que se quer?!? Tolice, que desde cedo te calcam o que é bom e mau costume. E vais dizer que é o certo a ser feito pra que não matem um ao outro e eu lhe digo: o povo é cordeiro e há mil lobos.’
‘Só há um lobo’, ele disse, ‘e ele está nesta mesa’.
Não falamos mais nada. Comemos. Costume estranho comer antes da morte –não comemos todos? Nossas pernas e braços, comida... Comemos.