Maria foi pra não voltar mais.
Lembro bem daquele dia, terça-feira sem nuvens, Maria chegando deslumbrante. É a primeira coisa de que posso lembrar: havia Maria e antes... nada. A primeira que posso lembrar e a que lembro quando me dói a saudade: “terça-feira sem nuvens, Maria chegando deslumbrante”. Dito assim parece sonho. E talvez fosse. E de repente eu acordo num suor frio:
Maria foi pra não voltar mais.
Maria já foi outras vezes antes. Um ritual próprio nosso. Briga feia, nossa; choro, dela; partida, dela; choro, meu; volta, dela; volta, nossa. E esse disco tinha tocado vezes demais pra não se saber a letra. Mas:
Maria foi pra não voltar mais.
Maria era assim, meio boba meio mulher, meio menina, mulherão. Meio. E eu era pouco mais que quase sem ela e agora sou quase um quase, porque:
Maria foi pra não voltar mais.
E dá um frio na barriga, um nó no coração. Uma dó que não é de mim, é dela, ou do não-ela, do anti-ela, anti-Maria, essa ausência onipresente. Muito daquilo, o eu, era dela: andar, olhar, sorrir, pensar, tudo dela, dela. E nessa solitude esmagadora mexer os dedos e respirar fundo, tudo que não soluço e choro me parece estranho: uma outra pessoa mexendo seus dedos de outra pessoa. Estranho até outra pessoa, porque só Maria existe e ainda assim:
Maria foi pra não voltar mais.
O tempo é estranho; há muitos tempos. Os segundos, os dias, os daqui a pouco e os nunca mais. Os nunca mais são duros, depois não há. Tem a lembrança que é irmã-amante da falta, tem a lembrança e o desespero:
Maria foi pra não voltar mais.
E é só.