quinta-feira, 26 de junho de 2008

Uma fábula moderna de personagens esquisitos e sem uma clara lição de moral no fim IV

(Para a menina de fogo nas idéias)

“Houve sempre duas vidas distintas: aquela que eu tinha e a que eu gostaria de ter. Havia também os momentos em que as duas eram como uma: aqueles sonhos nos quais só às vezes eu podia voar, aquele pai noel ouvindo histórias de uma criança que era qualquer coisa menos eu e parecia acreditar –no que havia uma justiça cavalheira, que eu também acreditava nele e ele não.
Houve também momentos em que uma era de fato a outra, ou, ao menos, assim ainda me parecem. Momentos tais que, injustiça divina (?), passam; passando e fazendo crer que a vida tem muito de tragédia grega e de um humor pastelão da pior espécie.
Ela foi um desses momentos.

Ela me achava genuinamente interessante, como se eu tivesse sempre algo que dizer, e naquela época, talvez, tivesse, ou achava que tinha, ou.
Ela: era diferente, única -igual toda mulher. Moderninha e antiquada, era uma insensatez divertida: meio sacana, meio naif, como se parte envelhecesse e outra não.

Apaixonava dia sim, dia não. (Ela, não eu. Eu ainda me levava muito a sério.) E foi que um dia, acho, apaixonou por mim –anos ingratos, que eu cria Amor, como fim e não meio. Eu, sisudo nos meus chistes, pensava três vezes antes de não fazer nada. Eu, seguro pela inação, só entendi tudo quinze minutos tarde demais: eu fui dia sim e dia não, noutro dia eu já não era mais nada.
Precisamente naquele dia ela era tudo. No outro também e no outro e noutro. Eu, patético e apaixonado, trágico e atrasado. Foi um timing ruim, é sempre um timing ruim. Uma morte sem culpados, um genuíno acidente: eu doendo uma paixão, ela sensata demais pra me levar a sério.

E foi assim muito tempo até que não dói mais.”

Uma fábula moderna de personagens esquisitos e sem uma clara lição de moral no fim VII

(Pra uma argentina)

“‘Eu quero isso, palavras aqui e ali, tudo em ordem. Sexo também é bom, sem essa coisa de selvageria, sem pressa, quase sem vontade, quero um amor que não sofre, não chora, não arde: um amor assim... insensível?, não, um amor tangível: que é honesto assim: o que se diz, o que se faz: é o que é, um amor sem grandes-coisa, um amor porto-seguro, que tudo que resta é incerto demais, e claro que esse amor não existe, que é miragem, alucinação de sede e fome, daí ser você, assim impossível, indo embora cedo só porque tem mesmo de ir’, eu quis dizer e não disse.

E ela levantou e foi embora, ‘Porque estou atrasada’, foi o que ela falou um português ruim enquanto me beijava a testa e ia embora para sempre (?).”

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Café

Abro a geladeira e passo alguns segundos decidindo o que vou comer, o que não vou comer e o que já deveria ter sido jogado fora. A voz dela sugere: ‘Leite, pão, ovo e laranja’; eu olho pra trás e constato sua translúcida e flutuante figura.

‘Oi vó’
‘Oi filho’.

Pego pizza gelada mais a coca-cola e boto na mesa. Ela reclama e reclama e eu não faço nada. Ela repreende e fala tudo aquilo que:
Eu devia me cuidar, correr na rua, alface e chicória no almoço e pro diabo com toda aquela cerveja.

Ela puxa um cigarro, acende e traga.
Isso não vai me matar duas vezes. Nem da primeira foi isso, foram meus pulmões asmáticos, explica. Eu não tiro o olhar dela e ela sorri. Quer ver como é que funciona?, e não me deixa responder. Ela põe a mão debaixo do seio (firme) e levanta a pele e os ossos e eu vejo aquela bomba metálica e os dois balões de festa cheios de algum gás leve pra que ela flutue. A bomba metálica se mexe bum, bash e pára de novo.
Ela solta a fumaça pro alto e eu presto atenção na minha comida. Tomo minha coca e só a calabresa da pizza. Guardo o resto e ela continua falando.

Daí eu me limpo, pego minhas coisas e faço tudo o aquilo que não

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Ladeira

Ele tinha uns dois metros e dez de altura e o que faltava em cabelo, sobrava em barba. Engraçado que ele lembrava um personagem de um livro. Talvez fosse o cara do livro que lembrava ele, mas isso é de tal sorte complexo que desanima pensar. A conclusão mesmo é que ele podia muito bem ser um personagem - mas quem, pitoresco ou não, não o é?
E vínhamos subindo aquela puta ladeira, coisa triste aquela hora da madruga, aquela puta ladeira e uma chuva fria. Acrescente dez, vinte, mil cervejas, sabedeus o quanto, e temos um cenário REALMENTE deprimente.

Que merda, cara, ele disse esfregando a mão no rosto, tateando óculos, água, barba, Merda.

O lance dele era nada de mais. Misérias normais, como as minhas e as tuas, só que naquele ponto ou temos tudo claro e resolvido, ou temos um mistério insolúvel. Ele tava no mistério insolúvel, autocrítica & autopiedade, e eu sem saco de bancar o dizedor de “tudo vai se resolver, cara, tudo vai”.

Ladeira cerveja chuva lamento madruga. Num falei nada e ele ‘Que merda, cara, merda’ e eu subindo, dois passos meus pra cada um dele.

Daí ele para. Eu olho. Deita no meio da rua, aquele corpo enorme nas duas pistas.
Me leva! Me leeeeeeeeeeeeva! e eu rio.
Ele não levanta e eu me sento ainda rindo, Me leva!, Me leva!. Não respondi, num era comigo. Só podia ficar rindo, aquele gigante horizontal clamando por um carro em alta velocidade.
Me leeeeeva!, mais rouco e desanimado, Me leeeeeeeeva!, quase um uivo.

Não levou.
Levantei, ele também, olho no olho, sorriso na cara.

Que merda, cara, merda, eu disse.
Ele: ‘vai tudo resolver, cara,
tudo vai’.

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Eu

Eu escrivinhador
escrevinhador
escrevimiador
escrevi minha dor

e ainda dói pra burro

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Autocrítica

todo o apaixonado
é um poeta

a merda
é escreverem tão
tão mal

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Gulliversalizando

As vezes queria ficar pequeno, bem pequenino, que coubesse debaixo do armário.
Daí lá de baixo bem escondido e encontrado, ver o mundo na sua magnitude e as pequenas coisinhas engrandecidas -nada como uma mudança no ponto de vista para colocar as coisas em perspectiva.
E, protegido de abraços, mentiras e beijos; escondido lá, meio homem, meio embrião, qualquer coisa de covarde, ensimesmado naquela velha metáfora de pequenitude, pensava que as vezes queria ficar pequeno.