terça-feira, 29 de julho de 2008

Magnifique

Ela entrou deslumbrante.
Des-lum-bran-te.

Era evidente que Ela estava bem e eu não.
‘Nossa, você emagreceu’, foi o que eu disse quando Ela me deu um ‘alô’. Um ‘alô’, não um ‘olá’; um ‘alô’ que é o vocábulo equivalente a sorrir e acenar a cabeça de longe a um conhecido reconhecido.
Foi o melhor que pude dizer a alguém que era toda a minha vida: respirar, Ela, pensar Ela, comer, Ela, beber (muito), Ela, minha obsessão e tema: Ela. Eu estava triste e miserável e, de novo, visão de redenção e danação, Ela.
Ela tinha me largado há quinze minutos, duas horas, sete dias e oito meses, mais ou menos. Um motivo tolo demais pra mascarar que Ela não me queria mais porque eu era cansativo ou porque simplesmente encontrara alguém que fodia melhor.
Não quero parecer grosseiro, o discurso de um perdedor: ela era uma grande filha da puta. Não foi. Ou foi e eu também fui em alguma medida, nada realmente ofensivo.
Ofensivo foi Ela, emagrecida&bela, entrando naquela maldita festa enquanto eu resmungava Ela pra um amigo entediado. ‘Que fazer?’, dizia ele, ‘deixa estar’. E eu, ‘Nossa, você emagreceu’. E Ela, nada. Seguiu adiante.
Nenhuma só palavra: se estava com alguém ou se sentia muito ou sentia ciúmes, ou que me detestava, ou, ou, ou. Nada. Só um ‘alô’.
Que fazer?, eu penso, Deixar estar.
Mas não posso.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Perfeitamente Hermético

Eu não consigo ficar só. Ou: não sei ficar só.
A ironia: não sei me tampouco estar acompanhado.
É bem simples, diz o didático professor, trata-se, basicamente, de traçar o seu papel e seguir a etiqueta. Ser um bom ouvinte, ser espirituoso, demontrar-se envolvido, etc, etc.
Ainda que tenha isso tudo, é como nada. Como se: houvesse um quebra-cabeça com a última peça grande demais pra encaixar. Ou: está tudo certo menos o... detalhe.
O desconfortável detalhe, lembra? O detalhe: um pingo fora do i; eu fora daqui. Um teatro de marionetes? Um ventríloco! Precisamente isso, um ventríloco de todo mundo que não diz qual a sua fala, ou não diz qual é a graça.
E sem saber se doce ou amargo, você (eu) pensa como seria bom se se estivesse sozinho pensando como seria bom estar acompanhado pensando outra coisa.

domingo, 20 de julho de 2008

Navalha!

Maria foi pra não voltar mais.
Lembro bem daquele dia, terça-feira sem nuvens, Maria chegando deslumbrante. É a primeira coisa de que posso lembrar: havia Maria e antes... nada. A primeira que posso lembrar e a que lembro quando me dói a saudade: “terça-feira sem nuvens, Maria chegando deslumbrante”. Dito assim parece sonho. E talvez fosse. E de repente eu acordo num suor frio:
Maria foi pra não voltar mais.
Maria já foi outras vezes antes. Um ritual próprio nosso. Briga feia, nossa; choro, dela; partida, dela; choro, meu; volta, dela; volta, nossa. E esse disco tinha tocado vezes demais pra não se saber a letra. Mas:
Maria foi pra não voltar mais.
Maria era assim, meio boba meio mulher, meio menina, mulherão. Meio. E eu era pouco mais que quase sem ela e agora sou quase um quase, porque:
Maria foi pra não voltar mais.
E dá um frio na barriga, um nó no coração. Uma dó que não é de mim, é dela, ou do não-ela, do anti-ela, anti-Maria, essa ausência onipresente. Muito daquilo, o eu, era dela: andar, olhar, sorrir, pensar, tudo dela, dela. E nessa solitude esmagadora mexer os dedos e respirar fundo, tudo que não soluço e choro me parece estranho: uma outra pessoa mexendo seus dedos de outra pessoa. Estranho até outra pessoa, porque só Maria existe e ainda assim:
Maria foi pra não voltar mais.
O tempo é estranho; há muitos tempos. Os segundos, os dias, os daqui a pouco e os nunca mais. Os nunca mais são duros, depois não há. Tem a lembrança que é irmã-amante da falta, tem a lembrança e o desespero:
Maria foi pra não voltar mais.

E é só.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Festim

Ele não deveria ser como era. Ou eu achava que não deveria se parecer assim. Mas o que eu sei sobre carrascos, afinal? Só sei que esperava algo grotesco, menos homem, mais carrasco, como se o corpo marcasse o ofício. Esperava qualquer coisa, menos um homem que eu poderia conversar, que poderia ter pais e filhos, que simplesmente não fosse como era.

E devo ter parecido quase decepcionado, porque disse, ‘A justiça toma muitas formas.’
‘A justiça?’, eu perguntei e ele não disse mais nada. Serviu-me o café, ‘Açúcar?’
‘Injustiçado?’, não disse nada. ‘Injustiçado?’, ele repetiu.
Sorri, ‘A injustiça toma muitas formas.’
Ele não sorriu, ‘O Povo quer Justiça.’
Engraçado pensar no povo, essa besta indefinível, incompreensível. O povo quer justiça, o povo quer comida, o povo quer. Essa criança mimada, o povo. ‘Sou um mártir?’, disse rindo, ‘um mártir morre agradando o Povo, para o Povo.’
‘Não diga tolices!’
Não falei mais. E ele, ‘Clemência? Não vai pedir clemência?’
‘Não diga tolices’, foi minha vez de dizer, ‘O que o povo conhece do que é perdão? O que o povo conhece de culpa, arrepender-se? O povo é um peixe.’
‘O cárcere atrofiou-lhe a alma, os olhos. Acaba-se a Liberdade e logo se perde o senso’
‘Pelo contrário, na falta do que pensar aguçam os sensos filosóficos e morais. Ousa dizer o que é liberdade? É ver o sol nascer inteiro? É estar fora daqui? Qual é o espaço mínimo para se ser livre? Um quarto, uma casa, uma cidade? Porque está sempre nalgum lugar o homem, em algum lugar de onde nunca sairá! Liberdade de fazer o que se quer?!? Tolice, que desde cedo te calcam o que é bom e mau costume. E vais dizer que é o certo a ser feito pra que não matem um ao outro e eu lhe digo: o povo é cordeiro e há mil lobos.’
‘Só há um lobo’, ele disse, ‘e ele está nesta mesa’.
Não falamos mais nada. Comemos. Costume estranho comer antes da morte –não comemos todos? Nossas pernas e braços, comida... Comemos.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Uma fábula moderna de personagens esquisitos e sem uma clara lição de moral no fim IV

(Para a menina de fogo nas idéias)

“Houve sempre duas vidas distintas: aquela que eu tinha e a que eu gostaria de ter. Havia também os momentos em que as duas eram como uma: aqueles sonhos nos quais só às vezes eu podia voar, aquele pai noel ouvindo histórias de uma criança que era qualquer coisa menos eu e parecia acreditar –no que havia uma justiça cavalheira, que eu também acreditava nele e ele não.
Houve também momentos em que uma era de fato a outra, ou, ao menos, assim ainda me parecem. Momentos tais que, injustiça divina (?), passam; passando e fazendo crer que a vida tem muito de tragédia grega e de um humor pastelão da pior espécie.
Ela foi um desses momentos.

Ela me achava genuinamente interessante, como se eu tivesse sempre algo que dizer, e naquela época, talvez, tivesse, ou achava que tinha, ou.
Ela: era diferente, única -igual toda mulher. Moderninha e antiquada, era uma insensatez divertida: meio sacana, meio naif, como se parte envelhecesse e outra não.

Apaixonava dia sim, dia não. (Ela, não eu. Eu ainda me levava muito a sério.) E foi que um dia, acho, apaixonou por mim –anos ingratos, que eu cria Amor, como fim e não meio. Eu, sisudo nos meus chistes, pensava três vezes antes de não fazer nada. Eu, seguro pela inação, só entendi tudo quinze minutos tarde demais: eu fui dia sim e dia não, noutro dia eu já não era mais nada.
Precisamente naquele dia ela era tudo. No outro também e no outro e noutro. Eu, patético e apaixonado, trágico e atrasado. Foi um timing ruim, é sempre um timing ruim. Uma morte sem culpados, um genuíno acidente: eu doendo uma paixão, ela sensata demais pra me levar a sério.

E foi assim muito tempo até que não dói mais.”

Uma fábula moderna de personagens esquisitos e sem uma clara lição de moral no fim VII

(Pra uma argentina)

“‘Eu quero isso, palavras aqui e ali, tudo em ordem. Sexo também é bom, sem essa coisa de selvageria, sem pressa, quase sem vontade, quero um amor que não sofre, não chora, não arde: um amor assim... insensível?, não, um amor tangível: que é honesto assim: o que se diz, o que se faz: é o que é, um amor sem grandes-coisa, um amor porto-seguro, que tudo que resta é incerto demais, e claro que esse amor não existe, que é miragem, alucinação de sede e fome, daí ser você, assim impossível, indo embora cedo só porque tem mesmo de ir’, eu quis dizer e não disse.

E ela levantou e foi embora, ‘Porque estou atrasada’, foi o que ela falou um português ruim enquanto me beijava a testa e ia embora para sempre (?).”

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Café

Abro a geladeira e passo alguns segundos decidindo o que vou comer, o que não vou comer e o que já deveria ter sido jogado fora. A voz dela sugere: ‘Leite, pão, ovo e laranja’; eu olho pra trás e constato sua translúcida e flutuante figura.

‘Oi vó’
‘Oi filho’.

Pego pizza gelada mais a coca-cola e boto na mesa. Ela reclama e reclama e eu não faço nada. Ela repreende e fala tudo aquilo que:
Eu devia me cuidar, correr na rua, alface e chicória no almoço e pro diabo com toda aquela cerveja.

Ela puxa um cigarro, acende e traga.
Isso não vai me matar duas vezes. Nem da primeira foi isso, foram meus pulmões asmáticos, explica. Eu não tiro o olhar dela e ela sorri. Quer ver como é que funciona?, e não me deixa responder. Ela põe a mão debaixo do seio (firme) e levanta a pele e os ossos e eu vejo aquela bomba metálica e os dois balões de festa cheios de algum gás leve pra que ela flutue. A bomba metálica se mexe bum, bash e pára de novo.
Ela solta a fumaça pro alto e eu presto atenção na minha comida. Tomo minha coca e só a calabresa da pizza. Guardo o resto e ela continua falando.

Daí eu me limpo, pego minhas coisas e faço tudo o aquilo que não

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Ladeira

Ele tinha uns dois metros e dez de altura e o que faltava em cabelo, sobrava em barba. Engraçado que ele lembrava um personagem de um livro. Talvez fosse o cara do livro que lembrava ele, mas isso é de tal sorte complexo que desanima pensar. A conclusão mesmo é que ele podia muito bem ser um personagem - mas quem, pitoresco ou não, não o é?
E vínhamos subindo aquela puta ladeira, coisa triste aquela hora da madruga, aquela puta ladeira e uma chuva fria. Acrescente dez, vinte, mil cervejas, sabedeus o quanto, e temos um cenário REALMENTE deprimente.

Que merda, cara, ele disse esfregando a mão no rosto, tateando óculos, água, barba, Merda.

O lance dele era nada de mais. Misérias normais, como as minhas e as tuas, só que naquele ponto ou temos tudo claro e resolvido, ou temos um mistério insolúvel. Ele tava no mistério insolúvel, autocrítica & autopiedade, e eu sem saco de bancar o dizedor de “tudo vai se resolver, cara, tudo vai”.

Ladeira cerveja chuva lamento madruga. Num falei nada e ele ‘Que merda, cara, merda’ e eu subindo, dois passos meus pra cada um dele.

Daí ele para. Eu olho. Deita no meio da rua, aquele corpo enorme nas duas pistas.
Me leva! Me leeeeeeeeeeeeva! e eu rio.
Ele não levanta e eu me sento ainda rindo, Me leva!, Me leva!. Não respondi, num era comigo. Só podia ficar rindo, aquele gigante horizontal clamando por um carro em alta velocidade.
Me leeeeeva!, mais rouco e desanimado, Me leeeeeeeeva!, quase um uivo.

Não levou.
Levantei, ele também, olho no olho, sorriso na cara.

Que merda, cara, merda, eu disse.
Ele: ‘vai tudo resolver, cara,
tudo vai’.

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Eu

Eu escrivinhador
escrevinhador
escrevimiador
escrevi minha dor

e ainda dói pra burro

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Autocrítica

todo o apaixonado
é um poeta

a merda
é escreverem tão
tão mal

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Gulliversalizando

As vezes queria ficar pequeno, bem pequenino, que coubesse debaixo do armário.
Daí lá de baixo bem escondido e encontrado, ver o mundo na sua magnitude e as pequenas coisinhas engrandecidas -nada como uma mudança no ponto de vista para colocar as coisas em perspectiva.
E, protegido de abraços, mentiras e beijos; escondido lá, meio homem, meio embrião, qualquer coisa de covarde, ensimesmado naquela velha metáfora de pequenitude, pensava que as vezes queria ficar pequeno.

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Nóia II

Ele estava lá esperando. Mão esquerda no bolso, a direita arrumando o impecável cabelo. Pigarreou, umedeceu os lábios, estampou um sorriso de canto de boca.

É sua vez, doutor.

Fez uma imagem mental de si mesmo e, satisfeito, entrou encarando o seu auditório. Acenou para as fileiras da frente com humildade fingida, sorriu para todos e começou:

Caros senhores...

Ele os tinha em suas mãos. Cada movimento, cada inflexão na voz, cada piada casual, tudo isso exaustivamente treinado para que parecesse fácil. E o texto, ah! que texto. Estava oferecendo nada menos que A palestra de suas vidas.
Mão esquerda no bolso, a direita falando junto com as palavras, desenvolvia o discurso, cada vez mais claro, mais belo.
Chegava ao ápice, a platéia atenta:

O que nos leva a crer...

E nesse ponto, por descuido, escorregou a mão esquerda pra fora do bolso.

Calou-se.
Olhou pra platéia embasbacada. Aqui e ali podia perceber o asco de seu auditório.
Olhou para a mão, com seus sete dedos, e riu nervoso, o riso ecoando no sepulcral silêncio.
Olhou para o alto, respirando fundo para não chorar.
E então, com um leve cutucar na nuca, desapareceu como se nunca houvesse existido homem, nem mão, nem dedo.

E que alívio se operou na platéia.

Nóia

Terminou de falar.
Os dois homens o olhavam como se esperassem por mais.
Sorriu amarelo e disse ‘Acabou’.

Eles não disseram nada; eram só olhos, nenhuma boca.
Fechou o sorriso e passou a língua na gengiva, percebendo os pontos em que sangrava.
Eles ainda não diziam nada, o da esquerda suspirou fundo.
Notou na frente da boca um dente frouxo. Balançou-o pra frente e pra trás distraído, só percebendo quando soltou. Desesperou-se e no desespero engoliu toda a saliva e sangue e dente.
-É somente isso. Obrigado, falaram os dois como um monstro bicéfalo.
Levantou-se sem abrir a boca. Correu o mais que pode, tentando não chamar atenção.
A da direita, Apressado?
Balançou a cabeça concordando.
A da esquerda, sorrindo, Mas pra quê?
Caiu sobre si o inevitável. Coisas, disse, expondo o buraco grotesco da ausência do dente, Coisas a serem feitas. Deu-lhes as costas e saiu em passos miúdos.

Naquele momento teve a certeza de que sua presença era somente tolerada.

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Confissões de um mentiroso

Essa vida é baseada em fatos normais.
Normalíssimos.
(Que mal há nisso?
Há também em Prosa e Poesia
tanta coisa banal)

E nessa obra que se adapta
,minha ficção da sua ficção
da minha,
nada de hipérbatos, zeugmas, metáforas
profundos paradoxos.

E ainda assim
se bem contada
que história não daria!

sábado, 25 de agosto de 2007

Cinemação

(interior dia ou noite, tanto faz, é um metrô)

Perfeitamente blasé
a bela personagem
lê Niet-z-s-che e outras estórias
igualmente trágicas
na lotação

Perfeitamente incompreensível
(ar de idéia moleca-
intelectual)
rabisca o livro, bufa,
vira página

Perfeitamente nua
debaixo daquela roupa
que nem era tanta
tanta tenta ação

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Pó a pó

Então sento eu e uma amiga lado a lado no mesmo banco de ônibus. A conversa vai em tons mais ou menos conhecidos, humor de piada boa que já se conhece; riso, não gargalhada. Papo vai e vem e vai de novo quando no canto do olho está lá, uma menina chorando. Não aquele choro discreto, mas copioso e soluçante, transbordante tristeza.
Foi-se o papo.
Minha amiga bem que falava, mas eu não ouvia. Nem via. Era tudo só aquela garota chorando, nó na garganta, altivez&dignidade zero, só sofrimento que não cabe em si. Olhava indisfarçado, vidrado. Ela, por sua vez, nem ligava, seus olhos brilhando de dor.
Queria ela para mim. Abraçar e dizer que está tudo bem. Beijar sua testa, terno, meio-amante e meio-pai, amigo “conte comigo pro que vier” e tudo mais. Seu rosto já seco em minha camisa encharcada, seus bracinhos na minha cintura, meu nariz no seu cabelo.
E ela desceu.

sábado, 10 de fevereiro de 2007

Da auto-ajuda à auto-piedade

(uma lição psicogeométrica)

só eu sou eu
eu só sou eu
eu sou só eu
eu eu sou só

*****************
Ps. Poema antigo reformulado

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007

Auto-análise

Outro dia li meu último texto. O anterior a esse e o outro também. Li também o meu primeiro. Interessante: uma perspectiva literária de mim por mim. Uma melhora clara no texto, em estilo, vocabulário. Maturidade principalmente. Isso é nada mais que óbvio, considerando os cinco anos que me separam de minha primogênita criação –e cinco anos quando se tem quinze e depois vinte são uma vida inteira.
Mas o que me chamou atenção, digo, o que era gritante e saltava do texto para os meus olhos era que eu escrevia desde o princípio sobre a mesma coisa. Todos os meus textos me soam como uma replicação daquele primeiro, aquele primeiro poema, onde os versos sequer eram livres, aquelas parcas dezesseis linhas dizem tanto quanto posso dizer quem sabe até o fim da vida.
Ora, pensas tu, exagero! Não é. Em nuances e diferentes formas, em contos ou poesias ou crônicas ou o quer que o valha, leio sempre a mesma coisa, a mesma idéia, o mesmo adolescente encantado com um romance malfadado por sua natureza platônica. Encantado com amar por amar, como só dizemos na primeira vez.
E se não a tivesse amado? E se, no momento crucial, dissesse a mim mesmo, que não me valeria (como de fato, nada me valeu). Por que há um momento em que decidimos, um momento racional, e nesse instante perguntamos: amo ou não amo? E a resposta, e tanto faz se uma ou outra, é acolhida incondicionalmente, como lei natural.
E se não a tivesse amado? E se dissesse não –supondo que pudesse dizer não, não creio- sobre o que escreveria? E
screveria esse texto? Ou, por outra, não escreveria, nem verso nem linha. Nem uma só palavra sobre ela. Nem uma só palavra sobre mim. Uma folha em branco é o que diria ao mundo, e talvez rabiscasse desenhos, obscenos ou não. E se não a tivesse amado? O que então?
E se não a tivesse amado cinco verões atrás?

Talvez não escrevesse tanta besteira.

sábado, 3 de fevereiro de 2007

Nonsense

Igual todo o dia ele virou na mesma esquina. Igual todo dia embicou na contra-mão, aquele curtinho espaço que lhe poupava uns bons seis minutos. Igual todo dia tocou de leve a buzina pra não pegar ninguém desprevinido. Igual todo dia o mendigo olhou pra ele só de lado e bebeu mais um gole da sua garrafa de qualquer coisa.
Mas não era um dia igual os outros. Nasceu sob signo de capricórnio ou escorpião, com saturno passando pra trás vênus, marte, quiçá a terra, coisa dessas inexplicável desde o momento que nasce. Se tivesse lido o horóscopo no jornal, Tenente Moreira -que por sinal jamais haveria de ler o horóscopo nem que fosse a última coisa a ser lida em uma interminável ida ao banheiro- nada teria lido de auspicioso, por sinal. Era um dia de tal maneira diferente, que, transcendendo o transcendental, se deu a história mais ou menos assim:
Você está multado, disse o guardinha que parecia estar lá tão somente para fazê-lo e ir embora com a sensação de dever cumprido. Tentente Moreira cuja falta, a seu ver, jusficava-se pela freqüência por que se dava, argumentou que o guarda só poderia estar de sacanagem. Faço isso todo o dia, porra!
Excedeu-se no porra. Cidadão, praguejar não vai te ajudar não. Você estava errado! Não estava?
Era inútil dizer que não. Mas raciocínio afiado, orgulho de mamãe, pensou por outra via. Tava, tava errado sim. Mas você nunca está aqui!
Que diferença faria a ausência do guarda se dava mais ou menos na mesma linha de raciocínio que justificara a persistência do erro tão somente por sua inauguração. O guarda ainda assim dignou-se a responder: Senhor... Não me venha com desculpas. Eu estou aqui todo santíssimo dia. Mentira!
Verdade! Eu o vejo aqui todos os dias, interrompeu um senhor (até então) alheio à conversa. Velho filho da puta, pensou sem dizer Tenente Moreira.
Mas acudiu-lhe uma idéia quando já pensava estar tudo perdido, como luz em fim de túnel, como mais óbvia via: a carteirada! Afinal, não se tratava de um simples moreira. Quatro anos de academia o fizeram mais do que isso, o fizeram Barão em terra de silvas. E no bolso esquerdo da calça estava a prova documental, nome e foto três por quatro, cargo quartel e lá mais o quê.
Qual não foi sua surpresa quando após detido e cuidadoso exame o guardinha o olhou de alto a baixo e perguntou: Que quer que se faça com isso? Bolas, sou militar! E a multa com isso? Militar, porra! Mi - li - tar!
E a senhora que passava curva pela idade e peso das compras irritada: Tanto se nos dá que sejas militar! És milico, somos civis! Hás de nos dar umas porradas?!? Percebes que teus tempos já se foram?, e antes que lhe pudesse responder, pega tua carteirinha e já lhe digo onde a enfias!
Escandalizado Tentente Moreira pegou-a de volta das mãos do guarda e enfiou no bolso sem reparar que amassava. Já sem nervos ou opções, aceitou estóico: dá logo a multa, não faz mais que a obrigação, estava errado, estás certo, acabe isso de uma vez logo! O guarda sacou sua caneta triunfante enquanto recolhia os dados necessários, placa modelo motorista.
E o mendigo tomou outro gole de sua qualquer coisa e só agora se podia reparar que percebia atento o que se dava, sem emitir juízo maior do que o franzir de sobrancelhas. Até agora...
Levantou-se deixando para trás suas parcas coisas, e num salto alcançou o topo de um fradinho. Virou-se eloqüente para sua multidão de passantes e disse:
Foi sem acidentes que se deu essa anti-cidadã atitude de nosso vulgo Tenente Moreira. E, vil criatura, de culpa assinada, tentava convencer o juiz máximo de sua inocência por seu repulsivo e insistente maucaratismo! Mas e se, obra de acaso, metesse o carro sobre inocente e vagabundo cão? E se, veloz demais, não puder frear e der cabo da senhora que carrega suas compras, esborrachando-a com seus tomates em homogênea massa? E se, ó impiedoso Deus, a ditraída criança não percebe o buzinar? Que havia de ser de nosso mundo fossemos todos tententes moreiras alheio aos outros e só consigo se importar-nos?!?
E, virando-se para o carro, A multa lhe cai bem? Pois ela só não o ensina! Eu o sentencio!
E a turba (que nesse momento a multidão virou turba nas mãos de alquímico retórico) veio a si, pantagruélico animal, envolvendo e devorando o carro. Calotas sem roda, capô sem um carro, motor sem bateria e mais... Para brisa sem vidros e o puxam pra fora. A sentença está feita e Tentente Moreira chora arrependido. Numa mordida se arrancam dois dedos, e vão ser chupados até os ossos. A cabeça já não tem um pescoço que lhe caiba e o maior quinhão é do Mendigo Rei. Os olhos são como uvas de desagradável gosto. O pau ostenta indeterminado gozo.
E quando não há mais nada, a turba volta a ser multidão. E a multidão segue seu caminho tranqüila, sensação de cumprido dever.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007

Hoje vai chover

Provável que fosse chover.
Melhor levar um guarda chuva, pensei. E levei.
E o trago comigo debaixo deste céu meio nublado –ou meio ensolarado, vulgar discurso de otimistas. E ando nas ruas à espreita, a espera de um pingo que precede a tromba d´água. Ele não vem.
Provável que fosse chover.
Foi o que disse a moça no jornal e toda a gente sabe muito bem que o tempo da metereologia imprecisa ficou pra trás há muito. Hoje as chances são de 99.9% e se erra uma vez em mil é infinitamente improvável que o faça no dia em dez anos que resolvi dar atenção ao que dizia.
Mas ainda não choveu.
Nem um pingo me consola. Nem um cuspe descuidado. Nem a água das plantas do terceiro andar de um prédio. Nem uma merda de passarinho, nada cai do céu.
Provável que fosse chover.
Ela me jurou. Em um tom (in)confidente, disse que chovia na cidade inteira. Mentira deslavada! Inverdade documentada! Inverossímil palpite! Faz-me de tolo com o guarda chuva ainda mais seco que quando saiu de casa. Toma-me por sonso, figura ridícula: debaixo do braço o guarda chuva e nem vestígio no céu do sobrenome deste.
Mas não fica por isso, silenciosa revolta, fico mais dez anos sem vê-la, e mais dez depois disso. Aí quero ver como ficas. Sem a mim e outros tantos traídos, guarda chuvas à postos juntando poeira da rua.

E um leve cutucar no ombro me chama atenção. Vem do alto, não detrás.
Ah! Torrencial chuva...